sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Metaxu - Simone Weil

Todas as criaturas recusam-se ser para mim como um fim. Tal como é a extrema misericórdia de Deus para mim. E é exatamente isto que constitui o mal. O mal é a forma que a misericórdia de Deus assume neste mundo. 

O mundo é uma porta fechada. Uma barreira. E ao mesmo tempo é o caminho através. 

Dois prisioneiros cujas celas são adjacentes comunicam-se por batidas na parede. A parede é aquilo que os separa mas, também, seu meio de comunicação. É o mesmo com nós e Deus. Cada separação é uma conexão. 

Ao por todos nossos desejos pelo bem em algo fazemos dessa coisa uma condição de nossa existência. Mas, por isso, não o consideramos um bem. Meramente existir não nos é suficiente. 

A essência de todas as coisas criadas é ser intermediário. São intermediários que levam um ao outro e não há fim nisso. São intermediários que levam a Deus. Temos que experimentá-los como tal. 

A ponte dos gregos. Nós a herdamos mas não sabemos como usá-la. Achavamos que deveriam ter sido contruída casas sobre elas. Erguemos arranha-céus sobre ela em que incessantemente adicionamos andares. Não sabemos mais que são pontes, coisas feitas para passarmos sobre elas, e por passar sobre elas alcançamos Deus. Apenas aquele que ama Deus com um amor sobrenatural pode considerar os meios como meios. 

Poder (e dinheiro, como a chave mestre do poder) é um meio na sua forma mais pura. Por issa mesmíssima razão, é o fim supremo daqueles que não entenderam. Este mundo, o campo da necessidade, nos oferece absolutamente nada, exceto meios. Nossa vontade é sempre transferida de um meio a outro, como uma bola de bilhar. Todos nossos desejos são contraditórios, como o desejo por comida. Quero que a pessoa amada me ame. Se, contudo, ela é completamente devotada a mim, ela não mais existe, e cesso de amá-la. E enquanto ela não for totalmente dedicada a mim, ela não me ama o suficiente. Fome e saciedade.

O desejo é maligno e ilusório, ainda assim sem o desejo não buscaríamos por aquilo que é verdadeiramente absoluto, verdadeiramente ilimitado. Temos que experimentá-lo. Miséria daqueles de quem a fadiga roubou a energia suplementar que é a fonte do desejo.  Miséria também daqueles que estão cegos pelo desejo. Temos que fixar nosso desejo ao eixo dos polos. 

O que é um sacrilégio destruir? Não aquilo que é básico, pois isso não é de importância. Não aquilo que é sublime, mesmo que desejássemos, pois não podemos alcançá-lo. O metaxu. O metaxu forma a região do bem e mal. Nenhum ser humano deveria ser privado de seu metaxu, isto é, que daquelas bençãos relativas e mistas (casa, país, tradições, cultura, etc.) que aquecem e nutrem a alma e sem as quais, exceto a santidade, uma vida humana é não é possivel.

As verdadeiras bençãos terrenas são metaxu. Podemos respeitar os dos outros apenas na medida em que consideramos os que possuímos como metaxu.Isso implica que já estamos caminhando para o ponto em que é possível prescindir deles. Por exemplo, se devemos respeitar os países estrangeiros, devemos fazer de nosso próprio país, não um ídolo, mas um degrau em direção a Deus.

Todas as faculdades sendo exercidas livremente sem se misturarem, partindo de um princípio único. É o microcosmo, a imitação do mundo. Cristo de acordo com Santo Tomás. O justo da República. Quando Platão fala de especialização, ele fala da especialização das faculdades do homem e não da especialização dos homens; o mesmo se aplica à hierarquia. O temporal não tem sentido senão pelo e para o espiritual, mas não se confunde com o espiritual - conduzindo a ele pela nostalgia, por ir além de si mesmo. É o temporal/transitório visto como uma ponte, um metaxu. É a vocação grega e provençal.

Civilização dos Gregos. Sem adoração de força. O temporal/transitório era apenas uma ponte. Entre os estados da alma eles não buscaram intensidade, mas pureza.

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