| Rev. Pe. Andrew Louth |
Todos os sistemas religiosos - e muitos sistemas filosóficos - estão preocupados em relacionar o mundo que conhecemos com algum outro domínio - o domínio dos deuses, ou do Próprio Deus, ou algum outro estado que transcenda este mundo e nossa experiência dele: algo similar considero a noção Budista de nirvana. A natureza deste mundo é facilmente reconhecível: é caracterizado pela morte, corrupção ou decadência e instabilidade, algumas vezes em termos morais de pecado. A natureza do outro mundo é, frequentemente, apenas uma imagem espalhada deste: é livre da morte, corrupção ou decadência, e também livre do pecado e seus efeitos. Um famoso exemplo disso é encontrado no Fédon de Platão, em que em um determinado ponto, Sócrates diz:
Você diria então, Cebes, que o resultado de toda nossa discussão se resume a isso: por outro lado, temos o que é divino, imortal, indestrutível, singular, acessível ao conhecimento, eternamente constante e imutável; e assim é a alma: por outro lado temos o que é humano, mortal, destrutível, variável, inacesseível ao pensamento, nunca constante e mutável: e assim é o corpo? (Fédon 80AB).
Essa noção introduz vários elemento em contrastes: o Uno em oposição ao múltiplo, que pode ser compreendido e o que é instável demais para ser entendido, o espiritual (alma) em oposição ao material (corpo); além disso, há a noção, implícita nisso, de que o humano permanece na fronteira entre os dois domínios pertencendo a ambos, e, portanto, capaz de se relacionar com ambos de alguma maneira.
Uma vez que se começa a lidar com essa ideia de dois domínios, um que a pertencemos, outro que aspiramos, inevitavelmente surge a preocupação com o que relaciona esses dois mundo, com que eu chamo de 'intermediário': μεταξύ. Platão, certamente, usou muito esse termo. τα μεταξύ, 'a coisa entre'. Aristóteles nos fala que τάμ αθηματικά, o conceito inferior as Formas no símile da linha divisória na República, eram chamadas de τα μεταξύ por Platão (Met. 987b 14-18). No simpósio, aprendemos de Diomita que 'todo daimônico [δαιμόνιον] é um intermediário entre (μεταξύ) o divino e mortal' (eSymp. 202E). Diotima continua explicando o poder dos daimons como:
Interpretar e transmitir coisas humanas aos deuses e coisas divinas aos humanos; petições e sacrifícios de baixo, ordens e respostas de cima; estando no meio, complementa ambos, de modo que o todo está ligado. Através [dos daimons] toda adivinhação ocorre, e todo o ofício do sacerdócio concernente ao sacrifício e ritos e encantamentos e toda interpretação de oráculos e magia. Deus não se mistura com o humano, mas através dos daimons toda conversa e comunicação dos deuses para os humanos, ou dos humanos para os deuses, ocorre, seja acordado ou dormindo. (Sin. 202E-203A)
Os entes matemáticos (números, figuras geométrica) são 'intermediários' do mundo dos sentidos e o mundo das Formas, pois se aplicam ao mundo sensível, onde discernismo os números e formas, mas participam do domínio das Formas, pois estão preocupados com o real conhecimento, επιστήμη. Os daimons são apresentados como intermediários entre deuses e humanos, espirituais, mas capazes de mudanças. O platonismo posterior - Fílo, Plotino e os neoplatonistas - desenvolveram um interesse por esse domínio do 'intermediário'. Porém, isso nos levaria para longe de nosso principal interesse que temos agora, ao menos diretamente, mas seria, acredito, útil olhar algumas analogias usadas pelos neoplatonistas para relacionar este mundo para aquele, o múltiplo ao Uno.
Para os Neoplatonistas, tudo procede do Uno e busca retornar, em um processo circular de repouso ou permanência (μονή) - processão (πρόοδος) - retorno (επιστροφή). Em termos gerais, este entendimento de como tudo deriva do Uno é comumente chamado de emanacionismo. Frequentemente, é mal compreendido e dado uma interpretação materialista, como que significasse que tudo deriva seu ser do Uno por algum tipo de fluxo, que então é revertido. Na verdade, a analogia de fluir de uma fonte não era uma que os neoplatônicos faziam muito uso, mas, ao contrário, faziam o uso de analogias fundamentalmente matemáticas. Essas analogias encontram um eco nos Padres da Igreja, e eu quero ilustrar essas idéias, não dos próprios neoplatônicos, mas dos Padres da Igreja, pois eles são nosso principal interesse.
O que precisa ser ilustrado por essa analogias é como tudo deriva do Uno, sem nenhum compromentimento da unidade do Uno. Então, o Uno não pode ser desmantelado pela emanação (assim, por exemplo, não devemos pensar em termos de algo fluindo do Uno, e esgotando-o, por assim dizer) nem o Uno pode ser pensado como um entre muitos.
A analogia mais popular para o repouso-processão-retorno são geométricas. Há a analogia do centro do círculo, da qual emergem os raios, que unem o centro do círculo à circunferência. É uma analogia que encontramos em Máximo (o Confessor). No primeiro capítulo de Mistagogia, ele compara a Igreja a Deus, como sua imagem, pois ela abrangem e reúne todos. Falando de Cristo, ele prossegue,
"É Ele que encerra em Si todos os seres pelo único, simples e infinamente sábio poder de Sua bondade. Como o centro de linhas retas que irradiam dele, ele não permite por uma única, simples e singular causa e poder que a origem dos seres se torne desconexa em seu limite, mas, ao invés disso, circunscreve sua extensão em um círculo e toma para Si mesmo os elementos distintivos dos seres trazidos à existência por Ele."
Cristo, então, é visto como o centro de um círculo, com os raios do círculo se comunicando com a circunferência cada vez maior do círculo, e não fazendo apenas isso, mas preservando-o como a circunferência de um círculo e, assim, relacionado ao centro que o define.
Outra imagem circular é encontrada em Dionísio o Areopagita. Logo que começa seu relato de 'Mistérios da Synaxis', ele fala da hierarquia, ou bispo, de pé no altar, orando e,então, saindo do altar e dando a volta na igreja incensando-a. Ele interpreta este movimento circular desse modo:
"A Bem-Aventurança Teárquica que tudo transcende entra em comunhão com os seres sagrados que participam dele, nunca saindo de sua estabilidade e estabelecimento essencialmente impassíveis, mas iluminando em medida todos os seres divinos ao seu redor, enquanto realmente permanece completamente imóvel de sua igualdade". ³
Dionísio parece imaginar um círculo saindo de um ponto e retornando, o círculo alcançando a realidade múltiplica (embora a linguagem às vezes sugira um círculo movendo-se para sua circunferência).
Todas essas imagens vêem a fonte, em repouso na unidade e quietude, relacionando-se por algum processo de movimento ao domínio de todas as coisas, mantidas no centro e com sua integraidade, pela atenção do Uno. É uma imagem poderosa, e seu poder reside não apenas na sua adequação metafísica, mas também no seu significado ontológico que confere ao movimento da Sagrada Liturgia, bem como ao sentido da contemplação como nossa forma de responder à atenção do Uno. Nessa relação, há um movimento através do domínio do 'intermediário'.
