sábado, 19 de março de 2022

A Teologia do Intermediário (μεταξύ), Rev. Pe. Andrew Louth - Parte I

Rev. Pe. Andrew Louth
Rev. Pe. Andrew Louth

Todos os sistemas religiosos - e muitos sistemas filosóficos - estão preocupados em relacionar o mundo que conhecemos com algum outro domínio - o domínio dos deuses, ou do Próprio Deus, ou algum outro estado que transcenda este mundo e nossa experiência dele: algo similar considero a noção Budista de nirvana. A natureza deste mundo é facilmente reconhecível: é caracterizado pela morte, corrupção ou decadência e instabilidade, algumas vezes em termos morais de pecado. A natureza do outro mundo é, frequentemente, apenas uma imagem espalhada deste: é livre da morte, corrupção ou decadência, e também livre do pecado e seus efeitos. Um famoso exemplo disso é encontrado no Fédon de Platão, em que em um determinado ponto, Sócrates diz: 

Você diria então, Cebes, que o resultado de toda nossa discussão se resume a isso: por outro lado, temos o que é divino, imortal, indestrutível, singular, acessível ao conhecimento, eternamente constante e imutável;  e assim é a alma: por outro lado temos o que é humano, mortal, destrutível, variável, inacesseível ao pensamento, nunca constante e mutável: e assim é o corpo? (Fédon 80AB). 

Essa noção introduz vários elemento em contrastes: o Uno em oposição ao múltiplo, que pode ser compreendido e o que é instável demais para ser entendido, o espiritual (alma) em oposição ao material (corpo); além disso, há a noção, implícita nisso, de que o humano permanece na fronteira entre os dois domínios pertencendo a ambos, e, portanto, capaz de se relacionar com ambos de alguma maneira. 

Uma vez que se começa a lidar com essa ideia de dois domínios, um que a pertencemos, outro que aspiramos, inevitavelmente surge a preocupação com o que relaciona esses dois mundo, com que eu chamo de 'intermediário': μεταξύ. Platão, certamente, usou muito esse termo. τα μεταξύ, 'a coisa entre'. Aristóteles nos fala que τάμ αθηματικά, o conceito inferior as Formas no símile da linha divisória na República, eram chamadas de τα μεταξύ por Platão (Met. 987b 14-18). No simpósio, aprendemos de Diomita que 'todo daimônico  [δαιμόνιον] é um intermediário entre (μεταξύ) o divino e mortal' (eSymp. 202E). Diotima continua explicando o poder dos daimons como:

Interpretar e transmitir coisas humanas aos deuses e coisas divinas aos humanos; petições e sacrifícios de baixo, ordens e respostas de cima; estando no meio, complementa ambos, de modo que o todo está ligado. Através [dos daimons] toda adivinhação ocorre, e todo o ofício do sacerdócio concernente ao sacrifício e ritos e encantamentos e toda interpretação de oráculos e magia. Deus não se mistura com o humano, mas através dos daimons toda conversa e comunicação dos deuses para os humanos, ou dos humanos para os deuses, ocorre, seja acordado ou dormindo. (Sin. 202E-203A)

Os entes matemáticos (números, figuras geométrica) são 'intermediários' do mundo dos sentidos e o mundo das Formas, pois se aplicam ao mundo sensível, onde discernismo os números e formas, mas participam do domínio das Formas, pois estão preocupados com o real conhecimento, επιστήμη. Os daimons são apresentados como intermediários entre deuses e humanos, espirituais, mas capazes de mudanças. O platonismo posterior - Fílo, Plotino e os neoplatonistas - desenvolveram um interesse por esse domínio do 'intermediário'. Porém, isso nos levaria para longe de nosso principal interesse que temos agora, ao menos diretamente, mas seria, acredito, útil olhar algumas analogias usadas pelos neoplatonistas para relacionar este mundo para aquele, o múltiplo ao Uno. 

Para os Neoplatonistas, tudo procede do Uno e busca retornar, em um processo circular de repouso ou permanência (μονή) - processão (πρόοδος) - retorno (επιστροφή). Em termos gerais, este entendimento de como tudo deriva do Uno é comumente chamado de emanacionismo. Frequentemente, é mal compreendido e dado uma interpretação materialista, como que significasse que tudo deriva seu ser do Uno por algum tipo de fluxo, que então é revertido. Na verdade, a analogia de fluir de uma fonte não era uma que os neoplatônicos faziam muito uso, mas, ao contrário, faziam o uso de analogias fundamentalmente matemáticas. Essas analogias encontram um eco nos Padres da Igreja, e eu quero ilustrar essas idéias, não dos próprios neoplatônicos, mas dos Padres da Igreja, pois eles são nosso principal interesse.

O que precisa ser ilustrado por essa analogias é como tudo deriva do Uno, sem nenhum compromentimento da unidade do Uno. Então, o Uno não pode ser desmantelado pela emanação (assim, por exemplo, não devemos pensar em termos de algo fluindo do Uno, e esgotando-o, por assim dizer) nem o Uno pode ser pensado como um entre muitos. 

A analogia mais popular para o repouso-processão-retorno são geométricas. Há a analogia do centro do círculo, da qual emergem os raios, que unem o centro do círculo à circunferência. É uma analogia que encontramos em Máximo (o Confessor). No primeiro capítulo de Mistagogia, ele compara a Igreja a Deus, como sua imagem, pois ela abrangem e reúne todos. Falando de Cristo, ele prossegue, 

"É Ele que encerra em Si todos os seres pelo único, simples e infinamente sábio poder de Sua bondade. Como o centro de linhas retas que irradiam dele, ele não permite por uma única, simples e singular causa e poder que a origem dos seres se torne desconexa em seu limite, mas, ao invés disso, circunscreve sua extensão em um círculo e toma para Si mesmo os elementos distintivos dos seres trazidos à existência por Ele."



Cristo, então, é visto como o centro de um círculo,  com os raios do círculo se comunicando com a circunferência cada vez maior do círculo, e não fazendo apenas isso, mas preservando-o como a circunferência de um círculo e, assim, relacionado ao centro que o define. 

Outra imagem circular é encontrada em Dionísio o Areopagita. Logo que começa seu relato de 'Mistérios da Synaxis', ele fala da hierarquia, ou bispo, de pé no altar, orando e,então, saindo do altar e dando a volta na igreja incensando-a. Ele interpreta este movimento circular desse modo: 

"A Bem-Aventurança Teárquica que tudo transcende entra em comunhão com os seres sagrados que participam dele, nunca saindo de sua estabilidade e estabelecimento essencialmente impassíveis, mas iluminando em medida todos os seres divinos ao seu redor, enquanto realmente permanece completamente imóvel de sua igualdade". ³

Dionísio parece imaginar um círculo saindo de um ponto e retornando, o círculo alcançando a realidade múltiplica (embora a linguagem às vezes sugira um círculo movendo-se para sua circunferência). 

Todas essas imagens vêem a fonte, em repouso na unidade e quietude, relacionando-se por algum processo de movimento ao domínio de todas as coisas, mantidas no centro e com sua integraidade, pela atenção do Uno. É uma imagem poderosa, e seu poder reside não apenas na sua adequação metafísica, mas também no seu significado ontológico que confere ao movimento da Sagrada Liturgia, bem como ao sentido da contemplação como nossa forma de responder à atenção do Uno. Nessa relação, há um movimento através do domínio do 'intermediário'. 






sexta-feira, 18 de março de 2022

Ditos do Abba Ló

1. Um dos velhos homens veio à habitação de Abba Ló, próximo ao pequeno pântano de Arsinoe e pediu uma cela, que Abba Ló lhe deu. Agora o velho homem caiu doente e Abba Ló cuidou dele. Quando alguém vinha ver Abba Ló, ele fazia o visitante também ver o velho homem. Mas o velho homem começou a citar as palavras de Orígines para os visitantes. Isso deixou Abba Ló ansioso e ele disse para sí mesmo, 'Os Padres não devem pensar que gostamos disso também'. Contudo, ele estava com medo de afastá-lo por causa do mandamento. Então Abba Ló levantou-se e foi até Abba Arsénio e disse-lhe sobre o velho hhomem. Abba Arsénio lhe disse, 'não se afaste dele, mas diga:Veja, coma o que vier de Deus e beba como quiser, só não faça mais tais citações. Se ele quiser, ele irá se autocorrigir, mas se não quiser, irá pedir para deixar o lugar conforme seu próprio acordo. Assim, o afastamento dele não virá de você'. Abba Ló saiu e fez conforme dito. Quando o velho homem ouviu tais palavras, ele não quis mudar, mas começou a pedir para ele, 'Pela misericórdia de Deus, mande-me embora daqui, pois não posso mais suportar o deserto'. Então ele se levantou e partiu, acompanhado até a porta com amor. 

2. Foi relatado de um irmão que havia cometido uma falta que quando ele foi para Abba Lot, ele estava perturbado e hesitou, entrando e saindo, incapaz de se sentar. Abba Ló lhe disse, 'O que está acontecendo, irmão?'. Ele disse, 'Eu cometi um grande pecado e não posso contar ao Padres'. O velho homem lhe disse: "Confesse para mim e cuidarei disso'. Então, ele disse, 'eu caí em fonricação, e para fazer isso, cometi sacrifício ao ídolos'. O velho homem lhe disse, 'Tenha confiança; o arrependimento é possível. Vá, sente em sua cela, coma apenas uma vez em dois dias e cuidarei de parte de seu pecado por você'. Após três semanas, o velho homem teve certeza que deus aceitou o arrependimento do irmão. Então, esse irmão permaneceu em obediência ao velho homem até sua morte. 

3. Abba Ló foi ver Abba José e disse-lhe, 'Abba, tal como posso, rezo meu ofício, jejuo um pouco, oro e contemplo, vivo e em paz tal como posso, purifico meus pensamento. O que mais eu posso fazer?'. Então, o velho homem levantou-se e apontou seus dedos em direção aos céus. Seus dedos se tornaram como dez lâmpadas de fogo e ele disse, 'se tu desejas, podes se tornar todo chama'.

4. Um irmão disse para Abba Pedro, o discípulo de Abba Ló, 'Quando estou em minha cela, minha alma está repleta de paz, mas se um irmão vem me ver e fala comigo sobre coisas externas, minha alma fica pertubada'. Abba Pedro disse que Abba Ló costuma dizer, 'Sua chave abre minha porta'. O irmão, então, perguntou, 'o que significa?'. O velho homem lhe disse: 'Quando alguém vem vê-lo, você diz: "Como você está? De onde você veio? Como estão os irmãos? Eles o receberam ou não?" Então você abriu a porta do irmão e ouvirá muita coisa que preferiria não ter ouvido'. O irmão disse-lhe: 'É assim. O que um homem deve fazer, então, quando um irmão vem vê-lo?' O velho disse: 'O arrependimento é o mestre absoluto. Não se pode proteger a si mesmo onde não há arrependimento.' O irmão disse: 'Quando estou na minha cela, o arrependimento está comigo, mas se alguém vier me ver ou eu sair da minha cela, não o tenho mais'. O velho disse: 'Isso significa que você ainda não tem nenhum arrependimento. É apenas que você o pratica algumas vezes. Está escrito na Lei: "Quando você comprar um escravo hebreu, ele servirá seis anos e no sétimo ficará livre, de graça. Se você lhe der uma esposa e ela gerar filhos em sua casa e ele não quiser ir por causa de sua esposa e filhos, você o conduzirá até a porta da casa e furará sua orelha com uma sovela e ele se tornará seu escravo para sempre (Ex. 21.2-6)'. O irmão disse: 'O que isso significa?'. O velho disse: 'Se um homem trabalha o máximo que pode em qualquer coisa, no momento em que busca o que precisa, ele o encontrará.' O irmão disse: 'Por favor, explique isso para mim.' O velho disse: 'O bastardo não ficará a serviço de ninguém; é o filho legítimo que não deixará seu pai.'



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Metaxu - Simone Weil

Todas as criaturas recusam-se ser para mim como um fim. Tal como é a extrema misericórdia de Deus para mim. E é exatamente isto que constitui o mal. O mal é a forma que a misericórdia de Deus assume neste mundo. 

O mundo é uma porta fechada. Uma barreira. E ao mesmo tempo é o caminho através. 

Dois prisioneiros cujas celas são adjacentes comunicam-se por batidas na parede. A parede é aquilo que os separa mas, também, seu meio de comunicação. É o mesmo com nós e Deus. Cada separação é uma conexão. 

Ao por todos nossos desejos pelo bem em algo fazemos dessa coisa uma condição de nossa existência. Mas, por isso, não o consideramos um bem. Meramente existir não nos é suficiente. 

A essência de todas as coisas criadas é ser intermediário. São intermediários que levam um ao outro e não há fim nisso. São intermediários que levam a Deus. Temos que experimentá-los como tal. 

A ponte dos gregos. Nós a herdamos mas não sabemos como usá-la. Achavamos que deveriam ter sido contruída casas sobre elas. Erguemos arranha-céus sobre ela em que incessantemente adicionamos andares. Não sabemos mais que são pontes, coisas feitas para passarmos sobre elas, e por passar sobre elas alcançamos Deus. Apenas aquele que ama Deus com um amor sobrenatural pode considerar os meios como meios. 

Poder (e dinheiro, como a chave mestre do poder) é um meio na sua forma mais pura. Por issa mesmíssima razão, é o fim supremo daqueles que não entenderam. Este mundo, o campo da necessidade, nos oferece absolutamente nada, exceto meios. Nossa vontade é sempre transferida de um meio a outro, como uma bola de bilhar. Todos nossos desejos são contraditórios, como o desejo por comida. Quero que a pessoa amada me ame. Se, contudo, ela é completamente devotada a mim, ela não mais existe, e cesso de amá-la. E enquanto ela não for totalmente dedicada a mim, ela não me ama o suficiente. Fome e saciedade.

O desejo é maligno e ilusório, ainda assim sem o desejo não buscaríamos por aquilo que é verdadeiramente absoluto, verdadeiramente ilimitado. Temos que experimentá-lo. Miséria daqueles de quem a fadiga roubou a energia suplementar que é a fonte do desejo.  Miséria também daqueles que estão cegos pelo desejo. Temos que fixar nosso desejo ao eixo dos polos. 

O que é um sacrilégio destruir? Não aquilo que é básico, pois isso não é de importância. Não aquilo que é sublime, mesmo que desejássemos, pois não podemos alcançá-lo. O metaxu. O metaxu forma a região do bem e mal. Nenhum ser humano deveria ser privado de seu metaxu, isto é, que daquelas bençãos relativas e mistas (casa, país, tradições, cultura, etc.) que aquecem e nutrem a alma e sem as quais, exceto a santidade, uma vida humana é não é possivel.

As verdadeiras bençãos terrenas são metaxu. Podemos respeitar os dos outros apenas na medida em que consideramos os que possuímos como metaxu.Isso implica que já estamos caminhando para o ponto em que é possível prescindir deles. Por exemplo, se devemos respeitar os países estrangeiros, devemos fazer de nosso próprio país, não um ídolo, mas um degrau em direção a Deus.

Todas as faculdades sendo exercidas livremente sem se misturarem, partindo de um princípio único. É o microcosmo, a imitação do mundo. Cristo de acordo com Santo Tomás. O justo da República. Quando Platão fala de especialização, ele fala da especialização das faculdades do homem e não da especialização dos homens; o mesmo se aplica à hierarquia. O temporal não tem sentido senão pelo e para o espiritual, mas não se confunde com o espiritual - conduzindo a ele pela nostalgia, por ir além de si mesmo. É o temporal/transitório visto como uma ponte, um metaxu. É a vocação grega e provençal.

Civilização dos Gregos. Sem adoração de força. O temporal/transitório era apenas uma ponte. Entre os estados da alma eles não buscaram intensidade, mas pureza.

domingo, 17 de outubro de 2021

Pavel Florensky - A Coluna e o Fundamento da Verdade : Segunda Carta (Dois mundos)

Sic semper. Sempre assim.


Meu doce, meu radiante amigo!

Nossa sala abobadada me saudou com frieza, tristeza, e solidão quando abri sua porta pela primeira vez após nossa viagem.

Mas, alas, entrei sozinho, sem ti.

Isso não foi a primeira impressão. Me lavei e coloquei as coisas em ordem. Já estão, como sempre, enfileirados na estante, essas filas de pensamentos materializados. Como antes, sua cama estava feita e sua cadeira posta no lugar (deixe-me pelo menos com a ilusão de que estás comigo!). Dentro da pequena lamparina de barro arde como antes o azeite, projetando no alto uma luz que acaricia o ícone do Salvador, o Rosto “não feito por mãos humanas”. Como antes, no final da noite o vento soprava ruidosamente por entre as árvores do lado de fora da janela. Fiel ao seu compromisso inalterado, ressoa confortavelmente os chocalhos da guarda noturna e gritão com ronco gemido as locomotivas. Como de costume, Como antes, os galos chamavam-se estridentemente pouco antes do amanhecer.. Como de costume, as quatro da manhã, os sinos badalavam chamando para matinas. Dias e noites se tornaram únicos para mim. Eu, estranhando, não sei onde me encontro nem o que me sucede. Sob as abóbadas, o espaço entre os estreitos muros de nossa habitação se converteram em um lugar gora do mundo e do tempo. E atrás dos muros as pessoas passam, conversam, contam as notícias, lêem periódicos; logo se vão, volta a passar e assim perpetuamente. Novamente, as distantes locomotivas choram em seu profundo contralto. Eterna paz aqui; eterno movimento lá. Tudo como antes… Mas tu não estavas comigo, e todo o mundo pareceu deserto. Eu sozinho, absolutamente sozinho em todo mundo. Mas minha solidão dolorosa dói docemente no meu coração. Às vezes, parece que me tornei uma daquelas folhas que são rodopiadas pelo vento no caminho.

Acordei ao amanhecer e senti o sentido de algo novo. De fato, atrás da janela, no pulso da noite, o verão se despediu. Nos redemoinhos de ar, as folhas douradas rodopiam e se espalham pelo chão. Em grupos, os pássaros começaram com a algazarra. Cruzam o céu em longas filas, e um turbilhão de corvos e corvos. O ar está repleto com doce aroma do outono, o cheio das folhas em decomposição, ansiando por distância.

Sai para as bordas do bosque.

Uma atrás da outra, uma atrás da outra caem as folhas. Rodopiam lentamente pelo ar, como mariposas agonizante, voando pela terra. Sobre a grama espessa joga o vento com as “sombras líquidas” de ramas. Que paz! Quanta alegria e tristeza ao mesmo tempo! Óh meu irmão, longe e sereno! Em ti habita a primavera, em mim o outono, sempre outono. Na alma inteira parece derramar em um doce definhar a vista dessas folhas que giram, sentindo

O aroma dos bosques de álamos desbotados

A alma parece encontrar a si mesma a vista da morte, pressentindo o palpitar da ressurreição. A vista da morte! Pois a morte me rodeia. E agora não falo dos meus próprios pensamentos, nem da morte em geral, mas da morte daqueles próximos a mim. Tantos, tantos perdi nesses últimos anos. Um após o outro, um após o outro, como essas folhas amareladas, vão caindo os seres queridos. Neles senti uma alma; neles vi, algumas vezes, um reflexo do paraíso. Apenas conheci o bem vindo deles. Mas minha consciência não está em paz: “O que fez por eles?”. Eles não mais estão, e, agora, entre mim e eles há um abismo.

Um após o outro, um após o outro, como as folhas de outono, aquelas pessoas de quem meu coração veio amar eternamente giram acima do abismo escuro. Eles se foram, não há retorno, não há possibilidade de abraçá-los aos seus pés, um a um. Esvaziou-se a oportunidade de regar a si mesmo com lágrimas e implorar perdão, implorar o mundo todo por perdão.

Novamente e novamente, cada pecado, cada “mesquinha” baixeza está presente, inerradicavelmente distinto, na minha consciência. Mais e mais profundamente, “mesquinha” desatenção, egoísmo e impiedade são marcadas na alma com letras de fogo, deformando-a. Nunca existiu pecado claro e tangível. Mas sempre (sempre, Ó Senhor) mesquinhez, um amontoado de mesquinhez. E de coisas insignificantes, as montanhas cresceram! E olhando para trás, não se pode ver nada além de sujeira. Nada bom . . . Ó Senhor!

As folhas de outono continuam caindo interruptamente. Uma após a outra descrevem um círculo sobre a terra. Suavemente, a lâmpada inextinguível queima, e um após o outro nossos entes queridos morrem. “Sei que ele ressuscitará no dia da ressurreição, o último dia”. No entanto, com um tipo de tranquilidade triste, repito diante de nossa cruz, feita de uma madeira simples, e abençoada por nosso afetuoso Stárets: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”.

Tudo gira. Tudo desliza para o abismo da morte. Apenas Um permanece, só Nele estão a constância, vida e paz. “Para ele é dirigido o curso de todos os eventos, do periférico ao centro. Para ele converge todo o raio do círculo das eras”. Não sou eu que falo isto, da minha experiência rasa. Não, este é o testemunho de um homem que imergiu integralmente a si no elemento do Único Centro: Bispo Teófano o Recluso. Por outro lado, fora deste Único Centro, “a única coisa certa é que nada é certo que nada mais miserável e arrogante do que o homem (solum certum nihil esse certi et homine nihil miserius aut superbius)”. Isso foi dito por um dos mais nobre pagão, Plínio o Velho, que se entregou totalmente à satisfação de sua curiosidade ilimitada. Sim, na vida tudo é um estado de inquietação, tudo é instável tal como uma miragem. E lá nas profundezas da alma cresce uma vontade insuportável de encontrar uma “Coluna e o Fundamento da Verdade”, em stulos kai hedraioma tes aletheias (1Tim. 3:15), em tes aletheis, e não meramente aletheias – não apenas um das verdades, não uma das particulares e fragmentadas verdades humanas, que é instável e se espalham como poeira perseguida pelo vento sobre as montanhas, mas na Verdade plena e eterna, a única Verdade Divina, a Verdade radiante e celestial, aquela “Verdade” que, segundo o antigo poeta, é o “sol do mundo".

E como se aproximar dessa coluna?

Junto ao corpo incorrupto de São Sérgio, que é uma fonte contínua de sossego para as almas abatidas, escutamos a cada dia e cada hora um chamado que promete também repouso da razão inquieta. O 43º perícope de Mateus (11:27-30), que é lido no Ofício de São Sérgio, tem principalmente um significado cognitivo, e até mesmo um significado epistemológico ou conhecimento-teórico. Isso fica mais claro quando reconhecemos que o assunto inteiro do capítulo onze de Mateus é o problema do conhecimento, o problema da insuficiência do conhecimento racional e a necessidade de conhecimento espiritual. Sim, Deus “escondeu” todas as coisas que poderiam ser chamadas dignas de serem conhecidas “dos sábios e prudentes, e revelou as crianças” (Mt. 11:25). Seria de uma violência injustificável para Escrituras reinterpretar “sábio e prudente” como “pseudo-sábio” e “pseudo-prudente” e “crianças” como os homens sábios virtuosos. O Senhor, claro, disse sem ironia precisamente o que ele queria dizer. A verdadeira sabedoria humana, a verdadeira prudência humana é insuficiente já que é humana. Ao mesmo tempo, a inocência mental das “crianças”, a ausência de riquezas mentais que impede de entrar no reino dos Céus, pode mostrar-se como uma condição que fortalece o conhecimento espiritual. Porém, a plenitude de tudo reside em Jesus Cristo e por isso o conhecimento verdadeiro se pode obter por somente por meio Dele e provendo Dele. Todos os esforços humanos para conhecer, que tanto atormentou os pobres sábios, são vaidosos. Como camelos desajeitados caminham os sábios sobrecarregados de seus conhecimento e, como a água salgada, a ciência não faz mais que tornar mais ardente a sede de conhecimento, não apaziguando nunca o espírito inflamado. Pois o “jugo suave” do Senhor e seu “peso leve” dão a mente o que ela não pode obter do jugo cruel e pesado, o fardo insuportável da ciência. Precisamente por isso que, no túmulo daquele que derrama a graça, as palavras divinas continuam soando como uma fonte incessante de água viva.

“Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo. Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11:27-30).

Longe de mim desejar convencer alguém. Dou de minha indignidade. E se ao menos uma alma sentisse que estou me dirigindo a ela com a única intenção de manter uma conversa íntima, e não como alguém que fala externamente de boca a ouvido, com isso eu ficaria satisfeito. Eu sei que você vai me receber, porque é você quem quebra as barreiras do meu egoísmo.

Meu irmão! Você compartilha da minha alma. Afastado e solitário, mesmo assim estou com você. Elevando-se acima do tempo, vejo seu olhar claro; mais uma vez, falo contigo cara a cara. É para você que escrevo meus pensamentos descontínuos. Você perdoará se eu começar a lutar sem seguir um sistema, marcando apenas alguns marcos.

Nas calmas noites de outono, nas horas sagradas de silêncio; quando uma lágria de êxtase brilha em meus cílios, secretamente, começarei a escrever para você esquemas e fragmentos lamentáveis daquelas questões que tanto discutimos juntos. Você sabe de antemão o que vou escrever. Você sabe que minha escrita não será didática e que o tom pomposo vem da minha incompetência tola. Se um professor sábio faz até o difícil como se fosse uma brincadeira, um aluno inexperiente emprega um tom solene mesmo em coisas triviais. E eu, afinal, nada mais sou do que um aluno que repete depois de você as lições do amor.

Pavel Florensky - A Coluna e o Fundamento da Verdade: um ensaio na Teodicéia Ortodoxa em doze cartas - Ao leitor

A experiência religiosa viva como único caminho legítimo para obter conhecimento dos dogmas - é assim que gostaria de expressar o tema geral do meu livro ou, preferencialmente, minhas anotações, que foram escritas em momentos e modos distintos. Apenas contando com experiência imediata alguém pode avaliar os tesouros espirituais da Igreja e vir a ver seu valor. Apenas passando uma esponja úmida sobre os escritos antigos alguém pode lavá-los com águas vivas e decifrar as cartas da literatura da Igreja. Os Santos Ascéticos da Igreja estão vivos para os vivos e mortos para os mortos. Para uma alma escurecida, as faces dos santos se tornam trevas; para uma alma paralisada, os corpos dos santos estão imóveis na fixidez terrível. Não é conhecido que os histéricos e possessos temem os santos? E aqueles que pecam contra a Igreja não são forçados a desviar o olhar com medo? Mas olhos descobertos vêem como sempre as faces dos santos como radiante, "tal como a face dos anjos". Para um coração purificado, essas faces são, como sempre, convidativas; como no passados, eles clamam por aqueles que tem ouvidos para ouvir. Eu pergunto a mim mesmo: por que o povo comum, em seu puro imediatismo, involuntariamente é atraído para esses santos? Por que em seu sofrimento silencioso esse povo comum encontra conforto nesses santos bem como a alegria do perdão e a beleza da celebração celeste? 

Eu não me iludo. Firmemente sei que fiz não mais do que acender uma vela de cera amarela. Mas essa pequena chama, tremendo em minhas mãos não acostumadas, trouxe uma miríade de reflexos cintilantes no tesouro da Santa Igreja. Por séculos, dia após dia, os tesouros foram depositados aqui - pedras preciosas por pedras preciosas, moedas de ouro por moedas de ouro. Como o orvalho perfumado em lã, como o mana celestial, a graça do poder de Deus iluminou as almas que desceram aqui.  Como as melhores pérolas, as lágrimas dos corações puros foram coletadas aqui. Aqui, onde o céu e a terra amontoou seu tesouro ao longo dos séculos. Os mais secretos anseios, as aspirações mais ocultas à semelhança com Deus; os momentos azuis de pureza angélica que vem após a tempestade; a alegria da comunhão com Deus e os tormentos do arrependimento ardente; a fragrância da oração e o desejo silencioso pelo céu; a eterna busca e eterno encontro; intuições infinitamente profundas de eternidade e a paz infantil da alma; temor e amor, amor sem fim... As eras se passaram, mas tudo isso permaneceu e cresceu. 

E cada um dos meus esforços espirituais, cada suspiro que sai dos meus lábios, convoca todo estoque de energia graciosa acumulada em meu auxílio. Braços invisíveis me sustém sobre os prados floridos do mundo espiritual. Em chamas com miríades de miríades e milhões de milhões de olhares, cintilantes, brincando como as vigas de um arco-íris ou como um número infinito de respingos radiantes, os tesouros da Igreja produzem em minha pobre alma um estado de medo e tremor. Incontáveis e inefáveis são as riquezas da Igreja. Posso tomá-las para meu uso; meus olhos queimam com avidez. Eu alcanço e pego um punhado ao acaso. Ainda não vi o que peguei. O que tenho em minhas mãos? Diamantes, carbúnculos ou esmeraldas? Ou talvez pérolas macias? Não sei se tudo que tenho é melhor ou pior do que me resta. Mas tendo, nas palavras de Atanásio o Grande, tomado "pequeno de muito", eu sei que estou insatisfeito de antemão com meus trabalhos, pois meus olhos queimam tão avidamente com a visão desses tesouros. O que significam algumas pequenas pilhas de pedras preciosas quando medidas pelo metro cúbico?

E, involuntariamente, lembro-me que como o espirito geral deste trabalho mudou gradualmente na minha consciência. De primeira, minha intenção era usar não apenas referências, mas apenas minhas próximas palavras. Mas logo fez-se necessário entrar em conflito comigo mesmo e permitir um espaço para curtos extratos. Mas quanto mais longe eu ia, mais eles começaram a crescer e se expandir em grandes fragmentos, até, finalmente, parecer que eu tinha que descartar tudo o que era meu e publicar apenas as obras da Igreja Talvez esse seja o único caminho correto, o cainho que consiste em direcionar diretamente à Igreja em si. E quem sou eu para escrever sobre o que é santo? "Conheço minha pobreza e tanto minha consciência quanto minha mente manchada de vícios me preenchem com remorso; e meus muitos pecados fazem desse grande trabalho um empreendimento difícil para mim". Mas se, apesar disso, atribuo algum significado às minhas cartas, é um exclusivamente preparatório, para catecúmenos. Estas cartas têm como objetivo prover algum sustento para eles até serem capazes de ser nutridos diretamente da mão de sua Mãe.

Eclesialidade - esse é um nome de refúgio onde a ansiedade do coração encontra paz, onde as pretensões de uma mente racional são domadas, onde uma grande tranquilidade ocupa nossa razão.Que nem eu ou ninguém mais seja capaz de definir o que é eclesialidade! Deixemos aqueles que atentam tal definição disputar entre si e refutar-se mutuamente em fórmulas de eclesialidade. De fato, não é sua indefinibilidade, seu desprendimento de fórmulas lógicas, sua inefabilidade prova que eclesialidade é vida, uma vida especial e nova, dada ao homem, mas que, como toda vida, é inacessível à razão humana?  Não é a divergência em definição de eclesialidade, a variedade sempre insuficiente e incompleta de fórmulas verbais para o que é eclesialidade, empiricamente confirmar o que os Apóstolos dizem: nomeadamente que a Igreja é o corpo de Cristo, "a plenitude Daquele que preenche tudo em todos" (Ef. 1:23)? Como, então, essa "plenitude" da vida Divina ser empacotada em um caixão estreito de definições lógicas? Seria ridículo pensar que essa impossibilidade contesta de toda maneira a existência da eclesialidade. Ao contrário, sua existência é bastante provada por essa impossibilidade. E na medida em que a eclesialidade é anterior a todas as suas manifestações separadas; na medida em que é o elemento divino-humano a partir do qual os sacramentos, os dogmas, os cânones e até mesmo a rotina temporária e cotidiana da Igreja foram cristalizados no curso da história da Igreja - nessa medida, alguém pode aplicar de forma preeminente à Igreja nesta plenitude a profecia do Apóstolo: “deve haver também divergências entre vós (dei kai aireseis en humin einai)” (1 Cor. 11:19), ou seja, divergências na interpretação da eclesialidade.  No entanto, quem não separa-se da Igreja recebe em si com a própria vida o elemento unitário da eclesialidade e sabe que a eclesialidade é e o que é.

Onde não há vida espiritual, algo externo deve existir como uma garantia de eclesialidade. Uma função específica, o papa, ou um sistema de funções, uma hierarquia - que é o critério de eclesialidade para católicos romanos. Por outro lado, uma fórmula confessional específica, o credo, ou um sistema de fórmulas, o texto das Escrituras, é o critério da eclesialidade para os protestantes. Numa análise final, em ambos os casos o que é decisivo é um conceito, um conceito jurídico-eclesiástico para os católicos e um conceito científico-eclesiástico para protestantes. Mas por ser um critério supremo, um conceito faz todas manifestações de vidas desnecessárias. 


inevitavelmente recai sobre os limites demarcados pelo conceito, causando dor e se tornando intolerável. Para o catolicismo (entendido que tanto o catolicismo quanto o protestantismo em seu extremo, em seu princípio), todas manifestações independentes de vida são não-canônica; para o protestantismo, não-científicas. Em ambos casos, a vida é truncada por um conceito; é rejeitada antecipadamente em nome de um conceito. Se o catolicismo é comumente associado com uma negação da liberdade enquanto o protestantismo é decisivamente associado com uma aceitação da liberdade, ambas dessas associações são incorretas. O catolicismo também reconhece a liberdade, mas uma liberdade que é definida antecipadamente; tudo que está fora dos limites definidos é ilegítimo. Por outro lado, o protestantismo reconhece a compulsão, mas apenas fora de fronteiras pré-definidas do racionalismo.  Tudo fora dessas fronteiras é não-científico. Se no catolicismo alguém percebe o fanatismo da canonicidade, então no protestantismo alguém percebe igualmente o grande fanatismo do cientificismo.  

A indefinibilidade da eclesialidade Ortodoxa, repito, é a melhor prova de sua vitalidade. Claro, nós Ortodoxos não podemos apontar nenhuma função eclesial sobre a qual se possa dizer que resuma toda a eclesialidade, pois qual seria o sentido de todas as outras funções e atividades da Igreja? Igualmente, não podemos pontuar nenhuma fórmula ou livro que seja tomado como plenitude da vida eclesial. E se tal fórmula ou livro existisse, qual seria o sentido das outras fórmulas e livros, de todas as outras atividades da Igreja? Não há conceito de eclesialidade, mas a vida em si, e para cada membro vivo da Igreja, a vida  da Igreja é a coisa mais definitiva e tangível que ele conhece. Mas a vida da Igreja é assimilada e conhecida apenas através da vida - não da abstração nem o caminho racional. Se, no entanto, se deve aplicar conceitos à vida da Igreja, os conceitos mais adequados não seriam jurídicos e arqueológicos, mas biológicos e estéticos. O que é eclesialidade? É uma nova vida, vida no Espírito. Qual é o critério de retidão dessa vida? Beleza. Sim, há uma beleza especial do espírito, e, incompreensível por fórmulas lógicas, é ao mesmo tempo o único caminho verdadeiro para a definição do que é ortodoxo e do que não é ortodoxo.


O conhecimento dessa beleza são os anciões espirituais, os starsty, mestres da "arte das artes", como os Santos Padres chamam os asceticismo. Os startsy eram adeptos de avaliar a qualidade da vida espiritual. O gosto ortodoxo, o temperamento ortodoxo, é sentido, mas não está sujeito a cálculos aritméticos. A ortodoxia é mostrada, não provada. É por isso que só existe uma maneira de entender a Ortodoxia: por meio da experiência Ortodoxa direta. Ouve-se que, em terras estrangeiras, as pessoas agora aprendem a nadar, deitadas no chão, com o auxílio de equipamentos. Da mesma forma, uma pessoa pode se tornar católica ou protestante sem experimentar a vida de forma alguma - lendo livros em seu quarto. Mas para se tornar Ortodoxo, é necessário mergulhar de uma vez no próprio elemento da Ortodoxia, para começar a viver de uma maneira Ortodoxa. Não há outro caminho.


A Teologia do Intermediário (μεταξύ), Rev. Pe. Andrew Louth - Parte I

Rev. Pe. Andrew Louth Todos os sistemas religiosos - e muitos sistemas filosóficos - estão preocupados em relacionar o mundo que conhecemos ...