A experiência religiosa viva como único caminho legítimo para obter conhecimento dos dogmas - é assim que gostaria de expressar o tema geral do meu livro ou, preferencialmente, minhas anotações, que foram escritas em momentos e modos distintos. Apenas contando com experiência imediata alguém pode avaliar os tesouros espirituais da Igreja e vir a ver seu valor. Apenas passando uma esponja úmida sobre os escritos antigos alguém pode lavá-los com águas vivas e decifrar as cartas da literatura da Igreja. Os Santos Ascéticos da Igreja estão vivos para os vivos e mortos para os mortos. Para uma alma escurecida, as faces dos santos se tornam trevas; para uma alma paralisada, os corpos dos santos estão imóveis na fixidez terrível. Não é conhecido que os histéricos e possessos temem os santos? E aqueles que pecam contra a Igreja não são forçados a desviar o olhar com medo? Mas olhos descobertos vêem como sempre as faces dos santos como radiante, "tal como a face dos anjos". Para um coração purificado, essas faces são, como sempre, convidativas; como no passados, eles clamam por aqueles que tem ouvidos para ouvir. Eu pergunto a mim mesmo: por que o povo comum, em seu puro imediatismo, involuntariamente é atraído para esses santos? Por que em seu sofrimento silencioso esse povo comum encontra conforto nesses santos bem como a alegria do perdão e a beleza da celebração celeste?
Eu não me iludo. Firmemente sei que fiz não mais do que acender uma vela de cera amarela. Mas essa pequena chama, tremendo em minhas mãos não acostumadas, trouxe uma miríade de reflexos cintilantes no tesouro da Santa Igreja. Por séculos, dia após dia, os tesouros foram depositados aqui - pedras preciosas por pedras preciosas, moedas de ouro por moedas de ouro. Como o orvalho perfumado em lã, como o mana celestial, a graça do poder de Deus iluminou as almas que desceram aqui. Como as melhores pérolas, as lágrimas dos corações puros foram coletadas aqui. Aqui, onde o céu e a terra amontoou seu tesouro ao longo dos séculos. Os mais secretos anseios, as aspirações mais ocultas à semelhança com Deus; os momentos azuis de pureza angélica que vem após a tempestade; a alegria da comunhão com Deus e os tormentos do arrependimento ardente; a fragrância da oração e o desejo silencioso pelo céu; a eterna busca e eterno encontro; intuições infinitamente profundas de eternidade e a paz infantil da alma; temor e amor, amor sem fim... As eras se passaram, mas tudo isso permaneceu e cresceu.
E cada um dos meus esforços espirituais, cada suspiro que sai dos meus lábios, convoca todo estoque de energia graciosa acumulada em meu auxílio. Braços invisíveis me sustém sobre os prados floridos do mundo espiritual. Em chamas com miríades de miríades e milhões de milhões de olhares, cintilantes, brincando como as vigas de um arco-íris ou como um número infinito de respingos radiantes, os tesouros da Igreja produzem em minha pobre alma um estado de medo e tremor. Incontáveis e inefáveis são as riquezas da Igreja. Posso tomá-las para meu uso; meus olhos queimam com avidez. Eu alcanço e pego um punhado ao acaso. Ainda não vi o que peguei. O que tenho em minhas mãos? Diamantes, carbúnculos ou esmeraldas? Ou talvez pérolas macias? Não sei se tudo que tenho é melhor ou pior do que me resta. Mas tendo, nas palavras de Atanásio o Grande, tomado "pequeno de muito", eu sei que estou insatisfeito de antemão com meus trabalhos, pois meus olhos queimam tão avidamente com a visão desses tesouros. O que significam algumas pequenas pilhas de pedras preciosas quando medidas pelo metro cúbico?
E, involuntariamente, lembro-me que como o espirito geral deste trabalho mudou gradualmente na minha consciência. De primeira, minha intenção era usar não apenas referências, mas apenas minhas próximas palavras. Mas logo fez-se necessário entrar em conflito comigo mesmo e permitir um espaço para curtos extratos. Mas quanto mais longe eu ia, mais eles começaram a crescer e se expandir em grandes fragmentos, até, finalmente, parecer que eu tinha que descartar tudo o que era meu e publicar apenas as obras da Igreja Talvez esse seja o único caminho correto, o cainho que consiste em direcionar diretamente à Igreja em si. E quem sou eu para escrever sobre o que é santo? "Conheço minha pobreza e tanto minha consciência quanto minha mente manchada de vícios me preenchem com remorso; e meus muitos pecados fazem desse grande trabalho um empreendimento difícil para mim". Mas se, apesar disso, atribuo algum significado às minhas cartas, é um exclusivamente preparatório, para catecúmenos. Estas cartas têm como objetivo prover algum sustento para eles até serem capazes de ser nutridos diretamente da mão de sua Mãe.
Eclesialidade - esse é um nome de refúgio onde a ansiedade do coração encontra paz, onde as pretensões de uma mente racional são domadas, onde uma grande tranquilidade ocupa nossa razão.Que nem eu ou ninguém mais seja capaz de definir o que é eclesialidade! Deixemos aqueles que atentam tal definição disputar entre si e refutar-se mutuamente em fórmulas de eclesialidade. De fato, não é sua indefinibilidade, seu desprendimento de fórmulas lógicas, sua inefabilidade prova que eclesialidade é vida, uma vida especial e nova, dada ao homem, mas que, como toda vida, é inacessível à razão humana? Não é a divergência em definição de eclesialidade, a variedade sempre insuficiente e incompleta de fórmulas verbais para o que é eclesialidade, empiricamente confirmar o que os Apóstolos dizem: nomeadamente que a Igreja é o corpo de Cristo, "a plenitude Daquele que preenche tudo em todos" (Ef. 1:23)? Como, então, essa "plenitude" da vida Divina ser empacotada em um caixão estreito de definições lógicas? Seria ridículo pensar que essa impossibilidade contesta de toda maneira a existência da eclesialidade. Ao contrário, sua existência é bastante provada por essa impossibilidade. E na medida em que a eclesialidade é anterior a todas as suas manifestações separadas; na medida em que é o elemento divino-humano a partir do qual os sacramentos, os dogmas, os cânones e até mesmo a rotina temporária e cotidiana da Igreja foram cristalizados no curso da história da Igreja - nessa medida, alguém pode aplicar de forma preeminente à Igreja nesta plenitude a profecia do Apóstolo: “deve haver também divergências entre vós (dei kai aireseis en humin einai)” (1 Cor. 11:19), ou seja, divergências na interpretação da eclesialidade. No entanto, quem não separa-se da Igreja recebe em si com a própria vida o elemento unitário da eclesialidade e sabe que a eclesialidade é e o que é.
Onde não há vida espiritual, algo externo deve existir como uma garantia de eclesialidade. Uma função específica, o papa, ou um sistema de funções, uma hierarquia - que é o critério de eclesialidade para católicos romanos. Por outro lado, uma fórmula confessional específica, o credo, ou um sistema de fórmulas, o texto das Escrituras, é o critério da eclesialidade para os protestantes. Numa análise final, em ambos os casos o que é decisivo é um conceito, um conceito jurídico-eclesiástico para os católicos e um conceito científico-eclesiástico para protestantes. Mas por ser um critério supremo, um conceito faz todas manifestações de vidas desnecessárias.

A indefinibilidade da eclesialidade Ortodoxa, repito, é a melhor prova de sua vitalidade. Claro, nós Ortodoxos não podemos apontar nenhuma função eclesial sobre a qual se possa dizer que resuma toda a eclesialidade, pois qual seria o sentido de todas as outras funções e atividades da Igreja? Igualmente, não podemos pontuar nenhuma fórmula ou livro que seja tomado como plenitude da vida eclesial. E se tal fórmula ou livro existisse, qual seria o sentido das outras fórmulas e livros, de todas as outras atividades da Igreja? Não há conceito de eclesialidade, mas a vida em si, e para cada membro vivo da Igreja, a vida da Igreja é a coisa mais definitiva e tangível que ele conhece. Mas a vida da Igreja é assimilada e conhecida apenas através da vida - não da abstração nem o caminho racional. Se, no entanto, se deve aplicar conceitos à vida da Igreja, os conceitos mais adequados não seriam jurídicos e arqueológicos, mas biológicos e estéticos. O que é eclesialidade? É uma nova vida, vida no Espírito. Qual é o critério de retidão dessa vida? Beleza. Sim, há uma beleza especial do espírito, e, incompreensível por fórmulas lógicas, é ao mesmo tempo o único caminho verdadeiro para a definição do que é ortodoxo e do que não é ortodoxo.

O conhecimento dessa beleza são os anciões espirituais, os starsty, mestres da "arte das artes", como os Santos Padres chamam os asceticismo. Os startsy eram adeptos de avaliar a qualidade da vida espiritual. O gosto ortodoxo, o temperamento ortodoxo, é sentido, mas não está sujeito a cálculos aritméticos. A ortodoxia é mostrada, não provada. É por isso que só existe uma maneira de entender a Ortodoxia: por meio da experiência Ortodoxa direta. Ouve-se que, em terras estrangeiras, as pessoas agora aprendem a nadar, deitadas no chão, com o auxílio de equipamentos. Da mesma forma, uma pessoa pode se tornar católica ou protestante sem experimentar a vida de forma alguma - lendo livros em seu quarto. Mas para se tornar Ortodoxo, é necessário mergulhar de uma vez no próprio elemento da Ortodoxia, para começar a viver de uma maneira Ortodoxa. Não há outro caminho.
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