domingo, 17 de outubro de 2021

Pavel Florensky - A Coluna e o Fundamento da Verdade : Segunda Carta (Dois mundos)

Sic semper. Sempre assim.


Meu doce, meu radiante amigo!

Nossa sala abobadada me saudou com frieza, tristeza, e solidão quando abri sua porta pela primeira vez após nossa viagem.

Mas, alas, entrei sozinho, sem ti.

Isso não foi a primeira impressão. Me lavei e coloquei as coisas em ordem. Já estão, como sempre, enfileirados na estante, essas filas de pensamentos materializados. Como antes, sua cama estava feita e sua cadeira posta no lugar (deixe-me pelo menos com a ilusão de que estás comigo!). Dentro da pequena lamparina de barro arde como antes o azeite, projetando no alto uma luz que acaricia o ícone do Salvador, o Rosto “não feito por mãos humanas”. Como antes, no final da noite o vento soprava ruidosamente por entre as árvores do lado de fora da janela. Fiel ao seu compromisso inalterado, ressoa confortavelmente os chocalhos da guarda noturna e gritão com ronco gemido as locomotivas. Como de costume, Como antes, os galos chamavam-se estridentemente pouco antes do amanhecer.. Como de costume, as quatro da manhã, os sinos badalavam chamando para matinas. Dias e noites se tornaram únicos para mim. Eu, estranhando, não sei onde me encontro nem o que me sucede. Sob as abóbadas, o espaço entre os estreitos muros de nossa habitação se converteram em um lugar gora do mundo e do tempo. E atrás dos muros as pessoas passam, conversam, contam as notícias, lêem periódicos; logo se vão, volta a passar e assim perpetuamente. Novamente, as distantes locomotivas choram em seu profundo contralto. Eterna paz aqui; eterno movimento lá. Tudo como antes… Mas tu não estavas comigo, e todo o mundo pareceu deserto. Eu sozinho, absolutamente sozinho em todo mundo. Mas minha solidão dolorosa dói docemente no meu coração. Às vezes, parece que me tornei uma daquelas folhas que são rodopiadas pelo vento no caminho.

Acordei ao amanhecer e senti o sentido de algo novo. De fato, atrás da janela, no pulso da noite, o verão se despediu. Nos redemoinhos de ar, as folhas douradas rodopiam e se espalham pelo chão. Em grupos, os pássaros começaram com a algazarra. Cruzam o céu em longas filas, e um turbilhão de corvos e corvos. O ar está repleto com doce aroma do outono, o cheio das folhas em decomposição, ansiando por distância.

Sai para as bordas do bosque.

Uma atrás da outra, uma atrás da outra caem as folhas. Rodopiam lentamente pelo ar, como mariposas agonizante, voando pela terra. Sobre a grama espessa joga o vento com as “sombras líquidas” de ramas. Que paz! Quanta alegria e tristeza ao mesmo tempo! Óh meu irmão, longe e sereno! Em ti habita a primavera, em mim o outono, sempre outono. Na alma inteira parece derramar em um doce definhar a vista dessas folhas que giram, sentindo

O aroma dos bosques de álamos desbotados

A alma parece encontrar a si mesma a vista da morte, pressentindo o palpitar da ressurreição. A vista da morte! Pois a morte me rodeia. E agora não falo dos meus próprios pensamentos, nem da morte em geral, mas da morte daqueles próximos a mim. Tantos, tantos perdi nesses últimos anos. Um após o outro, um após o outro, como essas folhas amareladas, vão caindo os seres queridos. Neles senti uma alma; neles vi, algumas vezes, um reflexo do paraíso. Apenas conheci o bem vindo deles. Mas minha consciência não está em paz: “O que fez por eles?”. Eles não mais estão, e, agora, entre mim e eles há um abismo.

Um após o outro, um após o outro, como as folhas de outono, aquelas pessoas de quem meu coração veio amar eternamente giram acima do abismo escuro. Eles se foram, não há retorno, não há possibilidade de abraçá-los aos seus pés, um a um. Esvaziou-se a oportunidade de regar a si mesmo com lágrimas e implorar perdão, implorar o mundo todo por perdão.

Novamente e novamente, cada pecado, cada “mesquinha” baixeza está presente, inerradicavelmente distinto, na minha consciência. Mais e mais profundamente, “mesquinha” desatenção, egoísmo e impiedade são marcadas na alma com letras de fogo, deformando-a. Nunca existiu pecado claro e tangível. Mas sempre (sempre, Ó Senhor) mesquinhez, um amontoado de mesquinhez. E de coisas insignificantes, as montanhas cresceram! E olhando para trás, não se pode ver nada além de sujeira. Nada bom . . . Ó Senhor!

As folhas de outono continuam caindo interruptamente. Uma após a outra descrevem um círculo sobre a terra. Suavemente, a lâmpada inextinguível queima, e um após o outro nossos entes queridos morrem. “Sei que ele ressuscitará no dia da ressurreição, o último dia”. No entanto, com um tipo de tranquilidade triste, repito diante de nossa cruz, feita de uma madeira simples, e abençoada por nosso afetuoso Stárets: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”.

Tudo gira. Tudo desliza para o abismo da morte. Apenas Um permanece, só Nele estão a constância, vida e paz. “Para ele é dirigido o curso de todos os eventos, do periférico ao centro. Para ele converge todo o raio do círculo das eras”. Não sou eu que falo isto, da minha experiência rasa. Não, este é o testemunho de um homem que imergiu integralmente a si no elemento do Único Centro: Bispo Teófano o Recluso. Por outro lado, fora deste Único Centro, “a única coisa certa é que nada é certo que nada mais miserável e arrogante do que o homem (solum certum nihil esse certi et homine nihil miserius aut superbius)”. Isso foi dito por um dos mais nobre pagão, Plínio o Velho, que se entregou totalmente à satisfação de sua curiosidade ilimitada. Sim, na vida tudo é um estado de inquietação, tudo é instável tal como uma miragem. E lá nas profundezas da alma cresce uma vontade insuportável de encontrar uma “Coluna e o Fundamento da Verdade”, em stulos kai hedraioma tes aletheias (1Tim. 3:15), em tes aletheis, e não meramente aletheias – não apenas um das verdades, não uma das particulares e fragmentadas verdades humanas, que é instável e se espalham como poeira perseguida pelo vento sobre as montanhas, mas na Verdade plena e eterna, a única Verdade Divina, a Verdade radiante e celestial, aquela “Verdade” que, segundo o antigo poeta, é o “sol do mundo".

E como se aproximar dessa coluna?

Junto ao corpo incorrupto de São Sérgio, que é uma fonte contínua de sossego para as almas abatidas, escutamos a cada dia e cada hora um chamado que promete também repouso da razão inquieta. O 43º perícope de Mateus (11:27-30), que é lido no Ofício de São Sérgio, tem principalmente um significado cognitivo, e até mesmo um significado epistemológico ou conhecimento-teórico. Isso fica mais claro quando reconhecemos que o assunto inteiro do capítulo onze de Mateus é o problema do conhecimento, o problema da insuficiência do conhecimento racional e a necessidade de conhecimento espiritual. Sim, Deus “escondeu” todas as coisas que poderiam ser chamadas dignas de serem conhecidas “dos sábios e prudentes, e revelou as crianças” (Mt. 11:25). Seria de uma violência injustificável para Escrituras reinterpretar “sábio e prudente” como “pseudo-sábio” e “pseudo-prudente” e “crianças” como os homens sábios virtuosos. O Senhor, claro, disse sem ironia precisamente o que ele queria dizer. A verdadeira sabedoria humana, a verdadeira prudência humana é insuficiente já que é humana. Ao mesmo tempo, a inocência mental das “crianças”, a ausência de riquezas mentais que impede de entrar no reino dos Céus, pode mostrar-se como uma condição que fortalece o conhecimento espiritual. Porém, a plenitude de tudo reside em Jesus Cristo e por isso o conhecimento verdadeiro se pode obter por somente por meio Dele e provendo Dele. Todos os esforços humanos para conhecer, que tanto atormentou os pobres sábios, são vaidosos. Como camelos desajeitados caminham os sábios sobrecarregados de seus conhecimento e, como a água salgada, a ciência não faz mais que tornar mais ardente a sede de conhecimento, não apaziguando nunca o espírito inflamado. Pois o “jugo suave” do Senhor e seu “peso leve” dão a mente o que ela não pode obter do jugo cruel e pesado, o fardo insuportável da ciência. Precisamente por isso que, no túmulo daquele que derrama a graça, as palavras divinas continuam soando como uma fonte incessante de água viva.

“Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo. Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11:27-30).

Longe de mim desejar convencer alguém. Dou de minha indignidade. E se ao menos uma alma sentisse que estou me dirigindo a ela com a única intenção de manter uma conversa íntima, e não como alguém que fala externamente de boca a ouvido, com isso eu ficaria satisfeito. Eu sei que você vai me receber, porque é você quem quebra as barreiras do meu egoísmo.

Meu irmão! Você compartilha da minha alma. Afastado e solitário, mesmo assim estou com você. Elevando-se acima do tempo, vejo seu olhar claro; mais uma vez, falo contigo cara a cara. É para você que escrevo meus pensamentos descontínuos. Você perdoará se eu começar a lutar sem seguir um sistema, marcando apenas alguns marcos.

Nas calmas noites de outono, nas horas sagradas de silêncio; quando uma lágria de êxtase brilha em meus cílios, secretamente, começarei a escrever para você esquemas e fragmentos lamentáveis daquelas questões que tanto discutimos juntos. Você sabe de antemão o que vou escrever. Você sabe que minha escrita não será didática e que o tom pomposo vem da minha incompetência tola. Se um professor sábio faz até o difícil como se fosse uma brincadeira, um aluno inexperiente emprega um tom solene mesmo em coisas triviais. E eu, afinal, nada mais sou do que um aluno que repete depois de você as lições do amor.

Pavel Florensky - A Coluna e o Fundamento da Verdade: um ensaio na Teodicéia Ortodoxa em doze cartas - Ao leitor

A experiência religiosa viva como único caminho legítimo para obter conhecimento dos dogmas - é assim que gostaria de expressar o tema geral do meu livro ou, preferencialmente, minhas anotações, que foram escritas em momentos e modos distintos. Apenas contando com experiência imediata alguém pode avaliar os tesouros espirituais da Igreja e vir a ver seu valor. Apenas passando uma esponja úmida sobre os escritos antigos alguém pode lavá-los com águas vivas e decifrar as cartas da literatura da Igreja. Os Santos Ascéticos da Igreja estão vivos para os vivos e mortos para os mortos. Para uma alma escurecida, as faces dos santos se tornam trevas; para uma alma paralisada, os corpos dos santos estão imóveis na fixidez terrível. Não é conhecido que os histéricos e possessos temem os santos? E aqueles que pecam contra a Igreja não são forçados a desviar o olhar com medo? Mas olhos descobertos vêem como sempre as faces dos santos como radiante, "tal como a face dos anjos". Para um coração purificado, essas faces são, como sempre, convidativas; como no passados, eles clamam por aqueles que tem ouvidos para ouvir. Eu pergunto a mim mesmo: por que o povo comum, em seu puro imediatismo, involuntariamente é atraído para esses santos? Por que em seu sofrimento silencioso esse povo comum encontra conforto nesses santos bem como a alegria do perdão e a beleza da celebração celeste? 

Eu não me iludo. Firmemente sei que fiz não mais do que acender uma vela de cera amarela. Mas essa pequena chama, tremendo em minhas mãos não acostumadas, trouxe uma miríade de reflexos cintilantes no tesouro da Santa Igreja. Por séculos, dia após dia, os tesouros foram depositados aqui - pedras preciosas por pedras preciosas, moedas de ouro por moedas de ouro. Como o orvalho perfumado em lã, como o mana celestial, a graça do poder de Deus iluminou as almas que desceram aqui.  Como as melhores pérolas, as lágrimas dos corações puros foram coletadas aqui. Aqui, onde o céu e a terra amontoou seu tesouro ao longo dos séculos. Os mais secretos anseios, as aspirações mais ocultas à semelhança com Deus; os momentos azuis de pureza angélica que vem após a tempestade; a alegria da comunhão com Deus e os tormentos do arrependimento ardente; a fragrância da oração e o desejo silencioso pelo céu; a eterna busca e eterno encontro; intuições infinitamente profundas de eternidade e a paz infantil da alma; temor e amor, amor sem fim... As eras se passaram, mas tudo isso permaneceu e cresceu. 

E cada um dos meus esforços espirituais, cada suspiro que sai dos meus lábios, convoca todo estoque de energia graciosa acumulada em meu auxílio. Braços invisíveis me sustém sobre os prados floridos do mundo espiritual. Em chamas com miríades de miríades e milhões de milhões de olhares, cintilantes, brincando como as vigas de um arco-íris ou como um número infinito de respingos radiantes, os tesouros da Igreja produzem em minha pobre alma um estado de medo e tremor. Incontáveis e inefáveis são as riquezas da Igreja. Posso tomá-las para meu uso; meus olhos queimam com avidez. Eu alcanço e pego um punhado ao acaso. Ainda não vi o que peguei. O que tenho em minhas mãos? Diamantes, carbúnculos ou esmeraldas? Ou talvez pérolas macias? Não sei se tudo que tenho é melhor ou pior do que me resta. Mas tendo, nas palavras de Atanásio o Grande, tomado "pequeno de muito", eu sei que estou insatisfeito de antemão com meus trabalhos, pois meus olhos queimam tão avidamente com a visão desses tesouros. O que significam algumas pequenas pilhas de pedras preciosas quando medidas pelo metro cúbico?

E, involuntariamente, lembro-me que como o espirito geral deste trabalho mudou gradualmente na minha consciência. De primeira, minha intenção era usar não apenas referências, mas apenas minhas próximas palavras. Mas logo fez-se necessário entrar em conflito comigo mesmo e permitir um espaço para curtos extratos. Mas quanto mais longe eu ia, mais eles começaram a crescer e se expandir em grandes fragmentos, até, finalmente, parecer que eu tinha que descartar tudo o que era meu e publicar apenas as obras da Igreja Talvez esse seja o único caminho correto, o cainho que consiste em direcionar diretamente à Igreja em si. E quem sou eu para escrever sobre o que é santo? "Conheço minha pobreza e tanto minha consciência quanto minha mente manchada de vícios me preenchem com remorso; e meus muitos pecados fazem desse grande trabalho um empreendimento difícil para mim". Mas se, apesar disso, atribuo algum significado às minhas cartas, é um exclusivamente preparatório, para catecúmenos. Estas cartas têm como objetivo prover algum sustento para eles até serem capazes de ser nutridos diretamente da mão de sua Mãe.

Eclesialidade - esse é um nome de refúgio onde a ansiedade do coração encontra paz, onde as pretensões de uma mente racional são domadas, onde uma grande tranquilidade ocupa nossa razão.Que nem eu ou ninguém mais seja capaz de definir o que é eclesialidade! Deixemos aqueles que atentam tal definição disputar entre si e refutar-se mutuamente em fórmulas de eclesialidade. De fato, não é sua indefinibilidade, seu desprendimento de fórmulas lógicas, sua inefabilidade prova que eclesialidade é vida, uma vida especial e nova, dada ao homem, mas que, como toda vida, é inacessível à razão humana?  Não é a divergência em definição de eclesialidade, a variedade sempre insuficiente e incompleta de fórmulas verbais para o que é eclesialidade, empiricamente confirmar o que os Apóstolos dizem: nomeadamente que a Igreja é o corpo de Cristo, "a plenitude Daquele que preenche tudo em todos" (Ef. 1:23)? Como, então, essa "plenitude" da vida Divina ser empacotada em um caixão estreito de definições lógicas? Seria ridículo pensar que essa impossibilidade contesta de toda maneira a existência da eclesialidade. Ao contrário, sua existência é bastante provada por essa impossibilidade. E na medida em que a eclesialidade é anterior a todas as suas manifestações separadas; na medida em que é o elemento divino-humano a partir do qual os sacramentos, os dogmas, os cânones e até mesmo a rotina temporária e cotidiana da Igreja foram cristalizados no curso da história da Igreja - nessa medida, alguém pode aplicar de forma preeminente à Igreja nesta plenitude a profecia do Apóstolo: “deve haver também divergências entre vós (dei kai aireseis en humin einai)” (1 Cor. 11:19), ou seja, divergências na interpretação da eclesialidade.  No entanto, quem não separa-se da Igreja recebe em si com a própria vida o elemento unitário da eclesialidade e sabe que a eclesialidade é e o que é.

Onde não há vida espiritual, algo externo deve existir como uma garantia de eclesialidade. Uma função específica, o papa, ou um sistema de funções, uma hierarquia - que é o critério de eclesialidade para católicos romanos. Por outro lado, uma fórmula confessional específica, o credo, ou um sistema de fórmulas, o texto das Escrituras, é o critério da eclesialidade para os protestantes. Numa análise final, em ambos os casos o que é decisivo é um conceito, um conceito jurídico-eclesiástico para os católicos e um conceito científico-eclesiástico para protestantes. Mas por ser um critério supremo, um conceito faz todas manifestações de vidas desnecessárias. 


inevitavelmente recai sobre os limites demarcados pelo conceito, causando dor e se tornando intolerável. Para o catolicismo (entendido que tanto o catolicismo quanto o protestantismo em seu extremo, em seu princípio), todas manifestações independentes de vida são não-canônica; para o protestantismo, não-científicas. Em ambos casos, a vida é truncada por um conceito; é rejeitada antecipadamente em nome de um conceito. Se o catolicismo é comumente associado com uma negação da liberdade enquanto o protestantismo é decisivamente associado com uma aceitação da liberdade, ambas dessas associações são incorretas. O catolicismo também reconhece a liberdade, mas uma liberdade que é definida antecipadamente; tudo que está fora dos limites definidos é ilegítimo. Por outro lado, o protestantismo reconhece a compulsão, mas apenas fora de fronteiras pré-definidas do racionalismo.  Tudo fora dessas fronteiras é não-científico. Se no catolicismo alguém percebe o fanatismo da canonicidade, então no protestantismo alguém percebe igualmente o grande fanatismo do cientificismo.  

A indefinibilidade da eclesialidade Ortodoxa, repito, é a melhor prova de sua vitalidade. Claro, nós Ortodoxos não podemos apontar nenhuma função eclesial sobre a qual se possa dizer que resuma toda a eclesialidade, pois qual seria o sentido de todas as outras funções e atividades da Igreja? Igualmente, não podemos pontuar nenhuma fórmula ou livro que seja tomado como plenitude da vida eclesial. E se tal fórmula ou livro existisse, qual seria o sentido das outras fórmulas e livros, de todas as outras atividades da Igreja? Não há conceito de eclesialidade, mas a vida em si, e para cada membro vivo da Igreja, a vida  da Igreja é a coisa mais definitiva e tangível que ele conhece. Mas a vida da Igreja é assimilada e conhecida apenas através da vida - não da abstração nem o caminho racional. Se, no entanto, se deve aplicar conceitos à vida da Igreja, os conceitos mais adequados não seriam jurídicos e arqueológicos, mas biológicos e estéticos. O que é eclesialidade? É uma nova vida, vida no Espírito. Qual é o critério de retidão dessa vida? Beleza. Sim, há uma beleza especial do espírito, e, incompreensível por fórmulas lógicas, é ao mesmo tempo o único caminho verdadeiro para a definição do que é ortodoxo e do que não é ortodoxo.


O conhecimento dessa beleza são os anciões espirituais, os starsty, mestres da "arte das artes", como os Santos Padres chamam os asceticismo. Os startsy eram adeptos de avaliar a qualidade da vida espiritual. O gosto ortodoxo, o temperamento ortodoxo, é sentido, mas não está sujeito a cálculos aritméticos. A ortodoxia é mostrada, não provada. É por isso que só existe uma maneira de entender a Ortodoxia: por meio da experiência Ortodoxa direta. Ouve-se que, em terras estrangeiras, as pessoas agora aprendem a nadar, deitadas no chão, com o auxílio de equipamentos. Da mesma forma, uma pessoa pode se tornar católica ou protestante sem experimentar a vida de forma alguma - lendo livros em seu quarto. Mas para se tornar Ortodoxo, é necessário mergulhar de uma vez no próprio elemento da Ortodoxia, para começar a viver de uma maneira Ortodoxa. Não há outro caminho.


A Teologia do Intermediário (μεταξύ), Rev. Pe. Andrew Louth - Parte I

Rev. Pe. Andrew Louth Todos os sistemas religiosos - e muitos sistemas filosóficos - estão preocupados em relacionar o mundo que conhecemos ...