| Sic semper. Sempre assim. |
Meu doce, meu radiante amigo!
Nossa sala abobadada me saudou com frieza, tristeza, e solidão quando abri sua porta pela primeira vez após nossa viagem.
Mas, alas, entrei sozinho, sem ti.
Isso não foi a primeira impressão. Me lavei e coloquei as coisas em ordem. Já estão, como sempre, enfileirados na estante, essas filas de pensamentos materializados. Como antes, sua cama estava feita e sua cadeira posta no lugar (deixe-me pelo menos com a ilusão de que estás comigo!). Dentro da pequena lamparina de barro arde como antes o azeite, projetando no alto uma luz que acaricia o ícone do Salvador, o Rosto “não feito por mãos humanas”. Como antes, no final da noite o vento soprava ruidosamente por entre as árvores do lado de fora da janela. Fiel ao seu compromisso inalterado, ressoa confortavelmente os chocalhos da guarda noturna e gritão com ronco gemido as locomotivas. Como de costume, Como antes, os galos chamavam-se estridentemente pouco antes do amanhecer.. Como de costume, as quatro da manhã, os sinos badalavam chamando para matinas. Dias e noites se tornaram únicos para mim. Eu, estranhando, não sei onde me encontro nem o que me sucede. Sob as abóbadas, o espaço entre os estreitos muros de nossa habitação se converteram em um lugar gora do mundo e do tempo. E atrás dos muros as pessoas passam, conversam, contam as notícias, lêem periódicos; logo se vão, volta a passar e assim perpetuamente. Novamente, as distantes locomotivas choram em seu profundo contralto. Eterna paz aqui; eterno movimento lá. Tudo como antes… Mas tu não estavas comigo, e todo o mundo pareceu deserto. Eu sozinho, absolutamente sozinho em todo mundo. Mas minha solidão dolorosa dói docemente no meu coração. Às vezes, parece que me tornei uma daquelas folhas que são rodopiadas pelo vento no caminho.
Acordei ao amanhecer e senti o sentido de algo novo. De fato, atrás da janela, no pulso da noite, o verão se despediu. Nos redemoinhos de ar, as folhas douradas rodopiam e se espalham pelo chão. Em grupos, os pássaros começaram com a algazarra. Cruzam o céu em longas filas, e um turbilhão de corvos e corvos. O ar está repleto com doce aroma do outono, o cheio das folhas em decomposição, ansiando por distância.
Sai para as bordas do bosque.
Uma atrás da outra, uma atrás da outra caem as folhas. Rodopiam lentamente pelo ar, como mariposas agonizante, voando pela terra. Sobre a grama espessa joga o vento com as “sombras líquidas” de ramas. Que paz! Quanta alegria e tristeza ao mesmo tempo! Óh meu irmão, longe e sereno! Em ti habita a primavera, em mim o outono, sempre outono. Na alma inteira parece derramar em um doce definhar a vista dessas folhas que giram, sentindo
O aroma dos bosques de álamos desbotados
A alma parece encontrar a si mesma a vista da morte, pressentindo o palpitar da ressurreição. A vista da morte! Pois a morte me rodeia. E agora não falo dos meus próprios pensamentos, nem da morte em geral, mas da morte daqueles próximos a mim. Tantos, tantos perdi nesses últimos anos. Um após o outro, um após o outro, como essas folhas amareladas, vão caindo os seres queridos. Neles senti uma alma; neles vi, algumas vezes, um reflexo do paraíso. Apenas conheci o bem vindo deles. Mas minha consciência não está em paz: “O que fez por eles?”. Eles não mais estão, e, agora, entre mim e eles há um abismo.
Um após o outro, um após o outro, como as folhas de outono, aquelas pessoas de quem meu coração veio amar eternamente giram acima do abismo escuro. Eles se foram, não há retorno, não há possibilidade de abraçá-los aos seus pés, um a um. Esvaziou-se a oportunidade de regar a si mesmo com lágrimas e implorar perdão, implorar o mundo todo por perdão.
Novamente e novamente, cada pecado, cada “mesquinha” baixeza está presente, inerradicavelmente distinto, na minha consciência. Mais e mais profundamente, “mesquinha” desatenção, egoísmo e impiedade são marcadas na alma com letras de fogo, deformando-a. Nunca existiu pecado claro e tangível. Mas sempre (sempre, Ó Senhor) mesquinhez, um amontoado de mesquinhez. E de coisas insignificantes, as montanhas cresceram! E olhando para trás, não se pode ver nada além de sujeira. Nada bom . . . Ó Senhor!
As folhas de outono continuam caindo interruptamente. Uma após a outra descrevem um círculo sobre a terra. Suavemente, a lâmpada inextinguível queima, e um após o outro nossos entes queridos morrem. “Sei que ele ressuscitará no dia da ressurreição, o último dia”. No entanto, com um tipo de tranquilidade triste, repito diante de nossa cruz, feita de uma madeira simples, e abençoada por nosso afetuoso Stárets: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”.
Tudo gira. Tudo desliza para o abismo da morte. Apenas Um permanece, só Nele estão a constância, vida e paz. “Para ele é dirigido o curso de todos os eventos, do periférico ao centro. Para ele converge todo o raio do círculo das eras”. Não sou eu que falo isto, da minha experiência rasa. Não, este é o testemunho de um homem que imergiu integralmente a si no elemento do Único Centro: Bispo Teófano o Recluso. Por outro lado, fora deste Único Centro, “a única coisa certa é que nada é certo que nada mais miserável e arrogante do que o homem (solum certum nihil esse certi et homine nihil miserius aut superbius)”. Isso foi dito por um dos mais nobre pagão, Plínio o Velho, que se entregou totalmente à satisfação de sua curiosidade ilimitada. Sim, na vida tudo é um estado de inquietação, tudo é instável tal como uma miragem. E lá nas profundezas da alma cresce uma vontade insuportável de encontrar uma “Coluna e o Fundamento da Verdade”, em stulos kai hedraioma tes aletheias (1Tim. 3:15), em tes aletheis, e não meramente aletheias – não apenas um das verdades, não uma das particulares e fragmentadas verdades humanas, que é instável e se espalham como poeira perseguida pelo vento sobre as montanhas, mas na Verdade plena e eterna, a única Verdade Divina, a Verdade radiante e celestial, aquela “Verdade” que, segundo o antigo poeta, é o “sol do mundo".
E como se aproximar dessa coluna?
Junto ao corpo incorrupto de São Sérgio, que é uma fonte contínua de sossego para as almas abatidas, escutamos a cada dia e cada hora um chamado que promete também repouso da razão inquieta. O 43º perícope de Mateus (11:27-30), que é lido no Ofício de São Sérgio, tem principalmente um significado cognitivo, e até mesmo um significado epistemológico ou conhecimento-teórico. Isso fica mais claro quando reconhecemos que o assunto inteiro do capítulo onze de Mateus é o problema do conhecimento, o problema da insuficiência do conhecimento racional e a necessidade de conhecimento espiritual. Sim, Deus “escondeu” todas as coisas que poderiam ser chamadas dignas de serem conhecidas “dos sábios e prudentes, e revelou as crianças” (Mt. 11:25). Seria de uma violência injustificável para Escrituras reinterpretar “sábio e prudente” como “pseudo-sábio” e “pseudo-prudente” e “crianças” como os homens sábios virtuosos. O Senhor, claro, disse sem ironia precisamente o que ele queria dizer. A verdadeira sabedoria humana, a verdadeira prudência humana é insuficiente já que é humana. Ao mesmo tempo, a inocência mental das “crianças”, a ausência de riquezas mentais que impede de entrar no reino dos Céus, pode mostrar-se como uma condição que fortalece o conhecimento espiritual. Porém, a plenitude de tudo reside em Jesus Cristo e por isso o conhecimento verdadeiro se pode obter por somente por meio Dele e provendo Dele. Todos os esforços humanos para conhecer, que tanto atormentou os pobres sábios, são vaidosos. Como camelos desajeitados caminham os sábios sobrecarregados de seus conhecimento e, como a água salgada, a ciência não faz mais que tornar mais ardente a sede de conhecimento, não apaziguando nunca o espírito inflamado. Pois o “jugo suave” do Senhor e seu “peso leve” dão a mente o que ela não pode obter do jugo cruel e pesado, o fardo insuportável da ciência. Precisamente por isso que, no túmulo daquele que derrama a graça, as palavras divinas continuam soando como uma fonte incessante de água viva.
“Todas as coisas me foram dadas por meu Pai; ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo. Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11:27-30).
Longe de mim desejar convencer alguém. Dou de minha indignidade. E se ao menos uma alma sentisse que estou me dirigindo a ela com a única intenção de manter uma conversa íntima, e não como alguém que fala externamente de boca a ouvido, com isso eu ficaria satisfeito. Eu sei que você vai me receber, porque é você quem quebra as barreiras do meu egoísmo.
Meu irmão! Você compartilha da minha alma. Afastado e solitário, mesmo assim estou com você. Elevando-se acima do tempo, vejo seu olhar claro; mais uma vez, falo contigo cara a cara. É para você que escrevo meus pensamentos descontínuos. Você perdoará se eu começar a lutar sem seguir um sistema, marcando apenas alguns marcos.
Nas calmas noites de outono, nas horas sagradas de silêncio; quando uma lágria de êxtase brilha em meus cílios, secretamente, começarei a escrever para você esquemas e fragmentos lamentáveis daquelas questões que tanto discutimos juntos. Você sabe de antemão o que vou escrever. Você sabe que minha escrita não será didática e que o tom pomposo vem da minha incompetência tola. Se um professor sábio faz até o difícil como se fosse uma brincadeira, um aluno inexperiente emprega um tom solene mesmo em coisas triviais. E eu, afinal, nada mais sou do que um aluno que repete depois de você as lições do amor.
